



João Vieira — Segundo a tradição oral, no início do século XIX houve na localidade a instalação de um acampamento de ciganos, possivelmente motivada pela presença das águas do rio da Roda, que contornam a região e oferecem condições favoráveis à agricultura e à criação de animais.
Ainda conforme a memória oral, esse grupo de ciganos envolveu-se em um conflito com dois homens oriundos do estado de Pernambuco, que teriam se interessado por duas mulheres ciganas. No desfecho do confronto, os pernambucanos saíram vitoriosos, contraíram matrimônio e deram origem a uma das primeiras famílias estabelecidas na região.
Um desses homens chamava-se João Vieira, cujo nome passou a designar a localidade. Posteriormente, outras famílias se fixaram na área, entre elas os Andrades, sobrenome bastante recorrente na região, descendente de Julião Andrade.
No âmbito econômico e cultural, destaca-se a tradição na produção de doces artesanais, especialmente a broinha e a cocada, fabricadas localmente e distribuídas para diversas localidades do entorno.
Em 1929, um episódio marcante da história local foi a passagem de um grupo de cangaceiros liderado por Lampião, que provocou temor na população por meio de saques ao comércio e ameaças de violência.
No aspecto religioso, sobressai a devoção a São Sebastião, padroeiro da comunidade, cuja festa é celebrada em 20 de janeiro. Na ocasião, realiza-se também a tradicional lavagem da igreja, evento que atrai fiéis tanto da localidade quanto de regiões vizinhas.

O bando de Lampião nos povoados de Araci
Em outubro de 1929, além do flagelo da seca, a população do sertão da Bahia ainda vivia assustada em razão das notícias sobre a aproximação de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e de seu bando de cangaceiros. O pânico era generalizado, e muitos aracienses abandonavam suas residências na sede do município, passando a dormir em fazendas distantes ou sob barracas armadas em plena caatinga.
Diante da iminente ameaça, os professores fechavam as escolas e encaminhavam os alunos de volta para suas residências sempre que recebiam qualquer informação sobre a possível chegada do bando à cidade.
Na edição de 13 de outubro de 1929, o Jornal Serrinhense publicou uma reportagem sobre a presença do bando de Lampião na região, alertando que este poderia atacar a cidade de Serrinha, fato que não se concretizou. O grupo, temendo encontrar forte resistência armada, acabou retrocedendo, uma vez que Serrinha possuía linha férrea, o que poderia facilitar a chegada rápida de reforços policiais.
Antes disso, uma parte do grupo de Lampião, liderada por Corisco, havia atacado o povoado de João Vieira e demonstrava a intenção de seguir para Araci e, posteriormente, para Serrinha, conforme relato publicado pelo Jornal Serrinhense sobre o ataque, transcrito a seguir:
[…] Narremos nas suas cores aproximadas o desenrolar dos factos praticados pelos bandidos: chegaram em João Vieira, de surpresa, às 16h de sábado, dia 5 do corrente, João do Norte, Mourão, Marreta e Beija-flor, chefiados por Corisco, e não tiveram tempo a perder. Sem demora, saquearam o pequeno commercio em quantia superior a 2:000$000 em dinheiro, além de mercadorias. As principais vítimas foram Carvalho & Filho, João Batista de Andrade, Venceslau Barreto, Tertuliano Góes e Antonio Geraldo. Guiados pelo alcoólatra João Góes, dirigiam-se a Aracy, cinco léguas distante. Em caminho, souberam que José Tibúrcio, fazendeiro, havia avisado Aracy. Sentindo-se burlados, retrocederam, para felicidade do povo de Aracy, e pernoitaram na fazenda Ribeira. Na manhã seguinte, ávidos de vingança, foram à fazenda de José Tiburcio, para cortar-lhe as mãos e furar-lhe os olhos — diziam. Encontrando a casa fechada, arrombaram as portas, espatifaram todos os móveis, incendiaram todos os papéis, inclusive escrituras, desmancharam um cercado próximo, encheram a casa de lenha e puseram fogo. A mulher de José Tibúrcio, informada do que se passava, oculta como se achava em casa de seu cunhado Martinho, num ímpeto de loucura, apanha uma criança aos braços, aproxima-se e implora piedade. Os bandidos dão-lhe liberdade de apagar o incêndio e desaparecem, para prosseguirem no seu rosário de misérias e crimes. Não estará longe o dia do castigo que merecem […].
(O Serrinhense, nº 21, 13 out. 1929, p. 1)
O grupo também passou pelo povoado da Barreira, de onde levou o ouro dos garimpeiros que atuavam na Cachoeira do Inferno.
A cidade de Araci, por sorte, não foi atacada pelos cangaceiros, diferentemente de algumas cidades vizinhas, como Tucano, Pombal, Cansanção e Queimadas. Esta última foi o local onde Lampião agiu com maior violência, praticando diversas atrocidades.
FONTES:
SILVA, Ana Nery Fátima Carvalho; SILVA, Franklin Rosevelt Carvalho; PINHEIRO, Pedro Juarez Oliveira. Araci: cidade da gente. Fortaleza, CE: Didáticos Editora, 2023.
Acervo do ex-prefeito José Carlos Mota
Jornal O Serrinhense (nº21, 13 out 1929, pág. 1)